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Hack de carreira

Foto de Photo by Edward Howell, via Unsplash

Na seção “Hack de carreira”, falei sobre como mudei alguns comportamentos que cultivei desde o meu primeiro emprego e que até pouco tempo atrás me prejudicavam e eu não tinha consciência. No decorrer do post, vou explicar um pouco melhor como tudo aconteceu e espero que sirva de exemplo e motivação.

Este material foi originalmente publicado na Trilha de Valor no decorrer de 10 edições. O texto foi revisado para fazer sentido como um post único, mas sem alterar o contexto e significado do conteúdo original. Para receber a newsletter na sua caixa de entrada, inscreva-se aqui.


Começando com contexto

Tudo começa comigo decidindo ir fazer Engenharia de Computação. Hoje em dia não sei explicar bem porque escolhi esse curso, já que na época eu não tinha noção do leque de possibilidades que poderia se abrir com ele. Mas eu estava decidida e, por ter o curso na universidade da minha cidade, me parecia a escolha mais correta.

Ilustração de um computador com sistema operacional carregando

Talvez eu deva dar um background a meu respeito. Aos 17 anos, entrando na faculdade e morando com os meus pais, eu não tinha a mínima noção de como as pessoas poderiam ser competitivas. Não tinha a mínima noção de que uma mulher entrando na tecnologia poderia incomodar. Não tinha a mínima noção de nada. Hoje eu penso que se soubesse, talvez teria passado de forma mais tranquila por diversas situações, mas ficar pensando nisso seria útil somente para me torturar e a intenção não é essa. A intenção de escrever sobre a minha carreira é ajudar outras pessoas que estão passando por alguma dificuldade ou que têm alguma dúvida e precisam conhecer outros pontos de vista. Também é para quem está vivendo uma situação desagradável ou até mesmo algo minimamente incômodo e que não dá atenção, mas que, lendo o meu relato, possa abrir os olhos e entender que merece mais.

Espero que esse meu rápido contexto não eleve as expectativas de forma desproporcional, mas é conversando com as pessoas, aprendendo e refletindo sobre a nossa própria história que podemos abrir os olhos e de repente entender que a vida que estamos vivendo já não nos deixa feliz. Eu tive esse tipo de gatilho várias vezes na minha vida e quase sempre pensava sobre como passei tanto tempo no automático, aceitando situações que as vezes nem eram tão ruins, mas que definitivamente poderiam melhorar se eu fizesse alguma coisa. Se eu conseguir fazer você ter esse tipo de reflexão pelo menos uma vez, compartilhar a minha trajetória aqui já terá valido a pena.

Passagem pela universidade

Ok, eu já falei sobre como eu era sem noção e não sabia o que me esperava, nada de novo para quem tinha 17 anos. Agora, quero contar sobre como foi a minha passagem pela universidade.

Meu primeiro ano foi horrível. Sim, essa é a melhor palavra para descrever. De 8 disciplinas, eu fui reprovada em 6. Passava o dia dedicada aos estudos: se ia para a aula de manhã, passava a tarde na biblioteca. Chegava em casa e, depois de comer e tomar um banho, dava mais uma estudada antes de dormir. Você já deve estar imaginando o quão frustrante foi manter essa rotina por uma boa parte do ano e mesmo assim ter sido um fracasso. Digo que foi por uma boa parte do ano porque de início passei um bom tempo jogando truco no centro de convivência, então preciso te deixar bem ciente da minha parcela de culpa. A vontade era de desistir e os conselhos que eu ouvia eram me motivando para isso. Mas ainda bem que meus pais sempre me apoiaram e me convenceram que eu estava apenas me adaptando e que no outro ano seria melhor.

Falando assim é até engraçado, porque eu falo que queria desistir como se eu tivesse alguma outra opção na minha vida que não fosse estudar. Se eu desistisse da faculdade teria que começar a trabalhar, o que é totalmente justo quando desistimos de estudar sendo sustentada pelos pais. Mas acontece que eu não desisti e decidi que no ano seguinte seria diferente. Diferente no sentido de me organizar para passar pela graduação de forma mais organizada e sustentável. Manter uma rotina de estudos sem descansar no final de semana é exaustivo, ainda mais quando no final não se tem o resultado esperado.

Ilustração de uma mulher estudando em uma biblioteca

A verdade é que eu vivia cansada, tentando vencer uma competição imaginária que acontece quando estamos em uma sala de aula com pouquíssimas mulheres e uma torcida para que a gente falhe. Então no meu segundo ano de faculdade decidi descansar um pouco nos finais de semana e entrar em um grupo de pesquisa, já pensando no meu assunto para o TCC. Pode parecer uma decisão um pouco ansiosa, mas estar focada para o TCC desde os primeiros anos e ter uma bolsa de estudos fez toda a diferença. Me graduei com um TCC nota 10 e ainda tive experiências muito legais, como apresentações de trabalhos em eventos, que me fizeram iniciar um processo para ser um pouco mais desinibida.

Acho que foi um bom resumo da minha vida na faculdade, nada que uma mulher estudando em qualquer engenharia não saiba. Mas é uma boa informação para quem está se preparando para algum curso de exatas.

Meu primeiro emprego

Anteriormente, eu falei sobre a minha graduação, que não foi apenas choro e desespero. Também teve muito aprendizado e posso dizer que a base que aprendi lá me ajudou muito em todos os cargos e papéis que tive até hoje e, no meu último ano de faculdade, consegui o meu primeiro emprego através de um programa de bolsas. Seguindo a linha do tempo correta, eu iniciei o último ano, entrei no programa de bolsas, apresentei o meu TCC e fiz uma certificação do Oracle ATG. Passar nessa certificação era a condição para poder ser efetivada e felizmente consegui ser aprovada.

Então foi isso, tive a grande “sorte” de sair da faculdade empregada. Digo sorte entre aspas porque desde o processo de seleção para o programa de bolsas até o momento da efetivação o meu sentimento era de que não seria aprovada em nenhuma etapa. Já na entrevista para a bolsa ouvi o professor falar para o recrutador que eu não era a melhor candidata, mas sei que ele se incomodava comigo por cobrar o registro das notas no sistema, algo de que não me arrependo e nem faria diferente.

Durante o estágio, a minha atuação se resumia a passar o dia estudando a documentação do Oracle ATG e ficar esperando algum mentor responder às minhas dúvidas. E a prova da certificação foi mais difícil do que deveria, já que fiquei me cobrando e coloquei na minha cabeça que não poderia falhar de forma nenhuma. Afinal, eu era a única mulher da equipe e não queria dar razão para quem me desacreditou durante toda a graduação.

Mas, como havia antecipado, passei na prova e fui efetivada. Me dediquei bastante para aprender tudo sobre o meu trabalho e virar o melhor desenvolvedor back-end da minha unidade. Fiz isso sem deixar de sempre treinar e apoiar qualquer nova turma de bolsistas que iniciasse com a gente e sempre acreditei que não é porque eu passava por poucas e boas para conseguir estudar e desempenhar o meu trabalho que os outros também deveriam passar. Mas também reconheço que em muitos momentos não estava preparada o suficiente para repassar conhecimento, justamente por focar o meu desenvolvimento somente na parte técnica.

Ilustração de uma mulher e um homem programando em par

Com o tempo, comecei a notar algumas coisas. Em algumas reuniões, a minha opinião não importava, alguns colegas não me retornavam ou até mesmo deixavam claro que não estavam a fim de trabalhar comigo. Era uma coisa que me incomodava, mas que só abri os olhos pela primeira vez quando comentei isso com dois colegas e eles me confirmaram que eu estava certa: “Infelizmente muita gente não dá o devido crédito para o teu trabalho e até se incomoda de trabalhar contigo”. E o mais decepcionante é que a desculpa nem era que eu era uma pessoa difícil de lidar ou algo do tipo. A desculpa é que, por ser mulher, eu provavelmente não era uma boa desenvolvedora.

Aquilo caiu como um balde de água fria, achei que nada poderia ser pior. Mas sempre pode piorar, infelizmente. Nas minhas férias eu tive o meu notebook “consultado para motivos profissionais”. Falando claramente, meu gestor acessou o meu notebook para ler os meus emails e conversas no Skype. Lembrando disso agora eu não sei como não pedi demissão imediatamente quando fiquei sabendo, mas eu vivi um alto nível de estresse e mesmo assim fiquei. Talvez porque eu queria provar que era boa e até acho que provei, porque, quando fui embora, tinha o cargo de desenvolvedora sênior.

Talvez eu não tivesse que provar nada para os outros, somente para mim mesma. Mas sair foi uma escolha difícil, por mais que eu não estivesse feliz. Sempre tive uma resistência à mudança e sei que esse foi um comportamento que impediu o meu crescimento em diversos momentos. Formar a consciência sobre isso é o que me motiva a dizer que o livro “Como as mulheres chegam ao topo” foi o momento de virada. Porque até ali eu achava que tudo isso acontecia somente comigo.

Descobrindo outras competências

Agora quero falar sobre a minha mudança para analista de sistemas e como esse novo enfoque foi um grande desafio.

Apresentar trabalhos em eventos da graduação me ajudou a ficar um pouco mais desinibida, mas falar em público ainda era um teste difícil para mim. Como desenvolvedora, eu tinha um trabalho muito individual e, quando precisava falar com alguém, usava o Skype ou o email. Isso era uma característica de se trabalhar em uma empresa terceirizada, que me fez focar em melhorar muito a parte técnica, mas sem dar a devida atenção para as soft skills.

Quando descobri que o meu papel no cargo de analista era ser Scrum Master de um time eu travei. Isso significava conversar com as pessoas e resolver impedimentos entrando em contato com quem nunca tinha conversado antes. Pode parecer algo simples, mas na época eu achei assustador. A diferença foi ter um gestor me dando apoio e que fez questão de me apresentar para todas as pessoas necessárias. Na primeira semana eu já conhecia pelo menos uma pessoa de cada área e isso foi muito positivo. Além da gestão próxima, também me chamou muita atenção ter uma universidade corporativa onde poderia trabalhar outras competências para desempenhar o meu trabalho, algo que eu não conhecia até então.

Ilustração de três pessoas apoiando uma seta para cima indicando resultados obtidos de forma conjunta

É impressionante como coisas que são extremamente simples podem impactar no nosso desenvolvimento. Tive o meu primeiro contato com onboarding, com agilidade, com redes de contatos corporativas e com tantos outros conceitos comuns a quem trabalha em empresas grandes que fiquei perdida nesse mar de definições. Mas é aqui que entra o reforço do meu pensamento de compartilhar conhecimento. Existem tantas coisas que não conhecemos porque estamos em uma estrutura menor ou porque focamos em habilidades específicas que perdemos grandes oportunidades, somente por não saber as possibilidades. Espero que este texto te ajude com isso.

Diferentes formas de aprender

Relembrando o que contei anteriormente, falei sobre a minha trajetória desde a graduação, passando pelo cargo de desenvolvedora e chegando ao papel de Scrum Master. E foi essa trajetória que me fez trabalhar um conjunto de competências diferentes: na faculdade trabalhei na minha organização pessoal, como desenvolvedora trabalhei meu conhecimento em back-end e como Scrum Master trabalhei as chamadas soft skills. Para ser mais precisa, interprete que sigo trabalhando todos esses aspectos, porque o aprendizado contínuo também é algo que entendi a importância durante todos esses anos.

Ao iniciar como Scrum Master, minha primeira ação foi ler o Scrum Guide. Por mais que eu tenha trabalhado em times que faziam dailies, eu nunca trabalhei em um time realmente ágil, ainda mais como responsável pelo método. Enquanto aprendia a como desempenhar o meu papel, também estava envolvida em atividades para formar um time. Por isso, precisei buscar outras fontes para entender todas as atividades envolvidas. Nesse caso em específico, contei com o apoio do meu coordenador na época para fazer a seleção de desenvolvedores.

Ilustração de uma mulher lendo sobre uma pilha de livros com vários livros flutuando ao fundo

Outra forma muito legal de aprender é participando de comunidades. Ultimamente tenho participado de vários eventos e eu sempre aprendo alguma coisa diferente. Quando eu participei do Bootcamp de Liderança Feminina da WoMakersCode, por exemplo, percebi o quanto ainda precisava estudar caso quisesse evoluir no meu papel de liderança. Além de conhecer várias referências, também aumentei a lista de livros que pretendo ler sobre o assunto.

Resumindo, além de ter um ambiente propício para desempenhar o seu trabalho, também é necessário buscar conhecimento ativamente. Seja lendo artigos, participando de um curso ou até mesmo pedindo apoio para alguém mais experiente. Independente do seu nível hierárquico, construir uma carreira vai passar por isso. Conseguir trilhar uma carreira de sucesso está diretamente ligado à motivação para seguir aprendendo.

Último histórico antes do plano de ação

Na seção anterior, cheguei ao ponto onde aprendi a como ser Scrum Master. Estava performando e conversando com as pessoas para entender como a minha evolução de carreira poderia acontecer a partir deste papel. Até que a área em que eu trabalhava foi transferida para outra cidade e eu não.

Com essa transição, acabei indo para um outro projeto, maior e mais desafiador. Dentro dele eu atuei em 3 times ao mesmo tempo, depois eles foram unidos e viraram somente 2. Em um determinado momento, uma grande reestruturação aconteceu, entrou uma nova gestão e passamos a olhar para novos horizontes. Houve um momento em que 13 times rodavam Scrum, com entregas dependentes entre si e uma organização era necessária entre eles para que a roda nunca parasse de girar. Foi o momento mais desafiador da minha carreira, onde praticamente deixei a minha vida pessoal de lado, em prol de um projeto que acreditava tanto que não pude perceber o quanto estava atuando com a visão limitada.

Ilustração de uma mulher aparentemente ocupada com um calendário com compromissos ao fundo

Todo o meu plano de desenvolvimento individual era pautado em virar uma especialista, porque, naquele momento, essa era a resposta para minha dúvida de carreira. Mas em determinado momento virei a chave e comecei a olhar para a gestão. Tive algumas pessoas sob minha responsabilidade, de forma experimental, e acredito que foi muito importante para a minha evolução. Porém, 6 meses e um feedback negativo totalmente inexplicável depois, todas as minhas responsabilidades e atuação foram aniquiladas. Esse foi um golpe duro no meio do caminho e ainda fiquei durante um bom tempo aceitando um trabalho que não correspondia à metade do que eu fazia anteriormente. Mas se eu não fosse realmente tão capaz, não teria assumido tanta responsabilidade como analista quando existia uma hierarquia definida e eu não estava nem sendo considerada dentro dela.

Quando finalmente consegui uma transferência de projeto, entrei em uma área onde aprendi muito e consegui ter uma visão estratégica, algo que quando era desenvolvedora nem imaginava que chegaria a ter. Tive a oportunidade de ter uma gestão próxima novamente e envolvimento com projetos desde o início, das mais diferentes áreas. Mas, como você deve ter percebido até aqui, não tenho muita sorte na minha trajetória. Após um mês de atuação a área foi extinta e lá estava eu, sendo transferida de novo.

Me entendendo como protagonista

Foram 6 seções tentando dar um contexto da minha atuação antes de realmente entrar no cerne da discussão da “Hack de carreira”. Todas as experiências profissionais tiveram pontos positivos e pontos negativos, mas algo que entendi há pouco tempo é que em todas essas experiências quem estava vivendo elas era eu mesma. Isso significa que eu aceitei situações desagradáveis, eu dei importância para opiniões alheias que não agregavam em nada e eu é quem deveria mudar e resolver os meus problemas. Para ficar claro, não estou dizendo que é tudo comigo, apenas que eu posso controlar o que está ao meu alcance.

Essa minha conclusão não saiu do dia pra noite. Eu estive em muitos times como Scrum Master e, apesar das diversas dificuldades que enfrentei, decidi que esse é o papel que quero seguir desempenhando e onde vou me desenvolver. Depois de muitas conversas, feedbacks e 1:1’s eu já tinha tomado essa decisão. O problema seria como colocar em prática.

Eu já citei anteriormente o livro “Como as mulheres chegam ao topo”, então você sabe que essa seção tem muito a ver com ele. O livro foi a leitura escolhida no mês de março no clube do livro das Mulheres de Produto e agradeço muito a essa ótima escolha. Ele foca nos 12 hábitos que as mulheres geralmente possuem e que impedem seu crescimento e a minha avaliação é que cada capítulo é um tapa na cara.

Queria deixar claro que quando falo sobre cada capítulo ser um tapa na cara, me refiro àquele tapa necessário. Aquele para acordar quem está vivendo em modo automático e tem várias crenças limitantes que não permitem que se saia do lugar. A newsletter é um exemplo disso, se eu não duvidasse tanto da minha capacidade ou não ficasse com tanto medo de julgamentos, ela já existiria no formato atual há muito mais tempo.

Ilustração de uma mulher em primeiro lugar em um pódio levantando um troféu em forma de estrela

O livro nos instiga a avaliar o nosso momento atual. O que eu acho meio óbvio, porque realmente é importante avaliar a situação atual antes de tomar qualquer decisão. Mas por muito tempo eu não fiz essa avaliação e segui sem direção. Porém, toda a história que contei para você nas seções anteriores, foi para mostrar da forma mais sucinta possível como fiz a retrospectiva da minha carreira, para entender o que precisava mudar.

Então, a cada capítulo do livro, tentei relacionar o hábito descrito comigo mesma e com situações que poderiam ter sido diferentes se eu agisse conforme os autores sugerem. Ao final do livro, estava com várias anotações a respeito do que poderia mudar e como poderia colocar essas mudanças em prática. Tudo isso foi feito após a última transferência que comentei na seção anterior. O fato de estar sempre em movimento sem uma gestão me acompanhando por tempo suficiente foi o que me levou a tomar consciência da minha situação e querer assumir o protagonismo da minha carreia. Porque, até aquele momento, estava deixando que outras pessoas decidissem por mim.

Foi uma conclusão bem importante entender que o meu gestor deve me guiar e não ser quem toma as decisões por mim, até porque esse não é o papel da gestão. Se eu ficasse esperando por isso, certamente seguiria andando em círculos.

Ao mesmo tempo em que avaliava a minha situação, decidi mudar o formato da newsletter que tinha anteriormente e formatar para esse modelo atual, com a seção “Hack de carreira” falando sobre a minha trajetória e o que mudou com as minhas decisões. Não sabia se daria certo ou errado, mas sabia que alguma coisa iria mudar e seria interessante compartilhar, principalmente para motivar outras pessoas a saírem de situações que não condizem com o que querem e merecem.

A partir da próxima seção, vou compartilhar com você como interpretei cada hábito e quais sugestões consegui colocar em ação.

Planejando a mudança

Chegou a hora de começar a falar sobre como coloquei em prática tudo o que aprendi depois de ler o “Como as mulheres chegam ao topo”. Quando comecei a escrever a “Hack de carreira”, sabia que alguma mudança iria acontecer, porque eu decidi ser a protagonista da minha carreira. E, se você vem acompanhando todas as edições da newsletter, provavelmente já deve saber algumas dessas mudanças, mas pretendo explicar da forma mais completa possível, ainda seguindo a linha do tempo.

Depois de ler o livro, selecionei quais dos 12 hábitos eu precisava trabalhar de forma prioritária. Precisei me esforçar para fazer essa seleção porque, sinceramente, eu me identifiquei com todos. Os próprios autores sugerem que a mudança inicie por um único hábito, mas como já estava insatisfeita há mais de 2 anos, achei que poderia incluir mais alguns na lista.

No momento em que gerei essa lista priorizada de hábitos, selecionei os seguintes:

  • Hábito 1: Relutar em reivindicar suas conquistas
  • Hábito 2: Esperar que os outros notem e recompensem espontaneamente suas contribuições
  • Hábito 6: Colocar seu emprego à frente de sua carreira
  • Hábito 10: Demais
  • Hábito 11: Ruminar

Deixei a definição de cada um deles neste post, já que alguns não possuem nomes muito autoexplicativos e também não queria deixar a newsletter enorme.

O que eu fiz em seguida foi entender como cada um deles me impactava e definir o que poderia fazer para mudar. Eu tinha consciência de que não poderia resolver todos de uma vez, mas precisava, pelo menos, tomar consciência do que estava me incomodando.

Ilustração de uma mulher sentada sobre um relógio rodeada por ícones de livros, alimentos, dinheiro, coração e artigos esportivos

Hábito 1

Depois que fui incluída num chat para me ensinarem algo que eu era referência dentro da companhia, notei que alguma coisa estava muito errada. Seja porque eu realmente não demonstrava o meu trabalho, seja porque tínhamos um problema muito sério de comunicação, eu liguei um alerta e decidi fazer algo a respeito.

Ter o conhecimento que o livro me trouxe ajudou muito, porque anteriormente eu provavelmente iria me chatear com a situação, reclamar um pouco e seguir adiante. Porém, dessa vez, eu decidi deixar claro para a minha gestão a respeito do meu conhecimento da ferramenta na próxima vez que conversamos.

Hábito 2

Além de esclarecer a situação do hábito anterior, eu também deixei a minha gestão ciente de todo o meu histórico. Nas seções anteriores, eu contei como a mudança constante de gestão me fez perder de vista o que eu realmente queria. Depois que eu entendi o quanto essas trocas me faziam mal e o quanto eu sacrificava dos meus planos sem ter uma contrapartida, ficou muito mais fácil entender que eu precisava deixar essa insatisfação clara, caso quisesse alguma mudança.

Hábito 10

Não foi apenas sair falando tudo o que eu tinha feito até o momento ou tudo o que me incomodava. O que eu fiz foi escrever quais eram as minhas entregas e o que me deixava frustrada. Depois, eu consolidei tudo para poder falar de forma sucinta todos os pontos e aproveitar da melhor forma possível o tempo que teria para expor tudo.

Hábito 11

Aqui estava o meu maior desafio. Esse hábito fala muito sobre superar acontecimentos e seguir adiante, mas eu tenho a mania de rever situações, esperando descobrir o que eu fiz errado e o que poderia fazer melhor.

Dentre todos os hábitos do plano de ação, encarei esse como o mais difícil de mudar, mas também como o mais urgente. O passo inicial foi entender que estava trabalhando com uma gestão que não tinha nada a ver com as situações anteriores. Mesmo assim, precisei passar todo o meu histórico para que ficasse clara a minha insatisfação com o quadro geral, apesar de estar muito feliz no time e na área que estava trabalhando no momento.

Hábito 6

Esse foi o hábito que precisei de mais apoio para quebrar. Eu sempre tenho uma relação de muita gratidão com a empresa que eu estou no momento. Se eu estou trabalhando em algum lugar, eu quero mostrar que eu mereço estar ali e que eu realmente estou feliz de ter a oportunidade. Essa minha característica talvez não esteja diretamente ligada a esse hábito, mas acredito que tem um grande peso nas minhas decisões em relação à minha carreira.

Eu nunca penso em relação à minha carreira, na verdade. Eu sempre penso no que posso fazer melhor ou como posso evoluir no lugar onde eu estou. E deveria ser uma troca justa: eu dedico grande parte do meu tempo trazendo resultados, então, em contrapartida, a empresa deveria me reconhecer de acordo. Depois de todas as situações que contei nas edições anteriores, eu já sabia que a balança não era equilibrada, mas eu precisei de dois anos para tomar uma decisão e mudar o rumo. O que eu descobri ser o meu tempo médio para fazer uma mudança, ou seja, tempo demais.

Com essas informações, cheguei no momento em que decidi iniciar a Trilha de Valor. Iniciei a newsletter com a seção “Hack de carreira” para compartilhar os resultados desse experimento, sem saber ao certo o que ia acontecer. Compartilhar a minha experiência completa tem sido um pouco estranho, já que aqui estou compartilhando situações que somente pessoas próximas a mim sabiam, mas eu acho que é importante mostrar que todo mundo tem muitos problemas no caminho, a diferença está em como respondemos a eles.

Na próxima seção, vou falar sobre como executei o meu plano a partir do que eu listei nos hábitos e como respondi ao retorno que tive. Obrigada por acompanhar até aqui.

Parte final

Depois de tantas seções, finalmente cheguei no momento de montar um plano de ação para fazer uma mudança na minha carreira. Já dei alguns spoilers na seção anterior, mas pretendo esclarecer um pouco mais esse momento.

A primeira coisa que eu fiz foi identificar o que não estava me satisfazendo. Como já comentei, eu adorava o time que estava trabalhando, aprendia muito sobre CRM e fazia parte de um grande momento de transformação digital. Porém, alguma coisa não estava me fazendo bem. Depois de todo o processo que contei na seção anterior, eu entendi que realmente me fazia falta ter um reconhecimento e uma perspectiva de possibilidades de carreira. Mesmo que a perspectiva fosse que eu iria sempre fazer o que eu fazia no momento. Mas eu precisava de uma gestão mais próxima e as mudanças constantes de gestão impediam isso.

Sabendo o que me incomodava, eu pude identificar o que eu deveria mudar para me motivar novamente. E assim, montei um plano de ação tímido, que iniciava com apenas um passo: conversar com a gestão.

Nessa conversa, expus as minhas dores, deixando claro o que eu gostaria de mudar. Além disso, também falei sobre as minhas entregas e resultados. Afinal, não adianta apenas reclamar sem apresentar soluções e sem justificar o porquê. Porém, o momento não era propício para mudanças e dependia de um retorno do RH para poder ter algum reconhecimento. Já adianto que o retorno do RH foi o mesmo, ou seja, deveria esperar para conversar novamente sobre as minhas insatisfações em outro momento.

Só que eu já estava no meu limite e falar sobre isso oficialmente trouxe à tona um peso e uma vontade de mudar que estavam guardados há tanto tempo que não tinha como ficar sem fazer nada. Foi assim que, depois de muito conversar em casa e com amigos e ler sobre as experiências de outras pessoas, eu decidi montar um novo plano de ação, dessa vez um pouco mais elaborado:

  • Entender se quero apenas mudar de empresa ou se também quero mudar a minha atuação;
  • Se decidir mudar a atuação:
    • Encontrar projetos com vagas abertas;
    • Escolher entre as vagas disponíveis quais fariam sentido e me candidatar;
  • Se decidir mudar de empresa:
    • Escolher empresas para me candidatar;
    • Me preparar para os processos seletivos.

Eu decidi manter a minha atuação e mudar de empresa. Falo com mais detalhes sobre a execução desse plano no post “Como foi o meu processo de troca de emprego” e, até o momento, posso dizer que foi a melhor decisão que tomei.

O que o post não mostra é que foram muitas noites dormindo mal, pensando em como seria parar de trabalhar com o time, nos impactos que a minha decisão causaria e todo o tipo de cenário negativo possível. Mas depois que me convenci que o melhor a fazer seria o melhor para mim, eu apenas pedi demissão. Não tinha me candidatado em nenhuma vaga, não tinha ideia de para onde iria e nem sabia quanto tempo ficaria desempregada. Mas, como comentei, depois que eu falei sobre o que me incomodava, apresentei opções, pedi ajuda e o retorno foi tão impessoal por parte do RH, eu sabia que a Ingrid que eu era iria aflorar a qualquer hora.

Ilustração de uma mulher assoprando um dente-de-leão

Falar assim é até engraçado, mas no início da minha carreira eu era uma pessoa que falava bastante em debates técnicos, me posicionava, sabia exatamente o que eu queria fazer e tinha orgulho de estar na área que escolhi atuar. Conforme o tempo foi passando e as experiências que compartilhei aqui foram acontecendo, sinto que fui sendo silenciada, desacreditada e descreditada. E o pior de tudo é que eu deixei tudo isso me afetar e virei uma pessoa que fica nervosa ao falar na frente de muitas pessoas, mesmo dominando o assunto; que sempre se questiona se deve dar uma opinião que não está de acordo com a maioria; que trabalha sempre séria; que se coloca num canto só observando em qualquer lugar só para evitar fazer algo de errado ou, mesmo sem fazer nada de errado, ser subjugada e tratada como uma empregada particular de quem gosta de aproveitar pequenos poderes.

Falar tudo isso não é nada fácil, mas acho que não falar também ajuda a manter os maus comportamentos dos outros, que acham que não é nada demais. Os passos mais difíceis que dei sempre foram os que me levaram para fora dos ambientes tóxicos em que vivi, mas foram os mais libertadores possíveis. Agora me resta recuperar a minha confiança, que está voltando aos poucos, e seguir apaixonada pelo meu trabalho. Apesar de ir um pouco contra o que falam, eu amo trabalhar. O meu propósito de vida está muito alinhado com o meu lado profissional e todo o trabalho que tive foi para estar onde estou e fazer o que faço. Então não vou deixar ninguém tirar isso de mim.

Obrigada por ler até aqui.

Edição extraordinária

Sei que nomeei a seção passada como “Parte final”. Só que algumas coisas aconteceram após a publicação e decidi compartilhar em uma edição extraordinária.

Primeiro, gostaria de compartilhar o depoimento que dei em um grupo de mulheres a respeito de uma situação bem chata que aconteceu comigo:

Eu passei por uma situação muito chata numa entrevista ontem. O candidato claramente falava comigo de um jeito diferente do que ele estava falando com os meus colegas. Por isso, depois da primeira pergunta eu não fiz nenhuma outra. Quando chegou a hora de ele perguntar, eu respondi a pergunta e ele literalmente perguntou a mesma coisa de novo. Senti como se eu estivesse falando com uma parede. O lado positivo é que depois da entrevista os outros SLs comentaram que perceberam esse comportamento e, mesmo o cara sendo muito bom tecnicamente, ele não iria adiante no processo. O que me deixa muito feliz, porque já passei por várias situações onde relevam comportamentos desse tipo porque precisam da expertise…

Por ser uma situação que sei que não acontece só comigo e, infelizmente, sei que não vai deixar de acontecer tão cedo, achei importante compartilhar. E nem quero focar no fato de que passei por mais uma situação do tipo, mas sim na minha surpresa com a reação dos meus colegas. Estou tão acostumada a ser a única que avalia alguns comportamentos que até me emocionei com a quebra de expectativa.

Essa história serve mais para lembrar que, por mais que eu me especialize e ganhe experiência, eu tenho que seguir criando resiliência para situações que fogem do escopo profissional ideal. Mas também serviu para lembrar que não estou sozinha. No fim, vejo o saldo como positivo.


Ilustrações via Storyset



ingridmachado

Ingrid Machado

Engenheira de computação, especialista em engenharia de software.
Autora deste querido blog.

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