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05 Fev 2024 | 7 minutos • Liderança e gestão

O gerente de primeiro nível

Algumas peculiaridades do papel

Ingrid Machado

Ingrid Machado

Engenheira de computação, especialista em engenharia de software. Autora deste querido blog.

Image de capa do post O gerente de primeiro nível
Foto de LUM3N, via Unsplash

Depois de ler o livro “Power to the middle”, fiquei pensando sobre o que foi apresentado e sobre como o meu papel se encaixa dentro da empresa atualmente. Por isso, decidi organizar os meus pensamentos nesse post e compartilhar porque considero o gerente de primeiro nível um papel importante e quais são os principais desafios enfrentados por quem atua nesse nível de gestão.

Definição do papel

Antes de mais nada, quero passar a definição que o livro dá para o papel, assim alinhamos as expectativas sobre qual nível estou falando:

Gerente de primeiro nível: nível de gestão formado por pessoas que já foram contribuidores individuais na operação e que agora atuam como gestão. E o nível de gestão atual é, pelo menos, um nível abaixo da liderança sênior.

Em outras palavras, esse nível também é conhecido como média gestão ou nível coordenação. É aquele gestor que está mais envolvido no dia a dia do time e atua diretamente com a operação. Existem diversas nomenclaturas, que dependem principalmente da área em que o gestor atua. Mas o principal é que é um gestor que está lidando diretamente com o time operacional.

Porque considero um papel importante

O principal para considerarmos o papel do gerente de primeiro nível importante é o fato de que ele influencia muito na permanência das pessoas dentro de uma empresa. Quando estamos considerando os pontos que nos fazem decidir ficar ou sair de algum lugar, a nossa gestão direta sempre tem um impacto direto nessa decisão. Posso falar por mim, que saí de times ótimos apenas para poder trocar de gestão.

Com todo esse peso, o gestor de primeiro nível precisa ser alguém que realmente goste de fazer gestão de pessoas e esteja disposto a desempenhar o seu papel. Quando o time precisa de apoio para resolver problemas e não consegue encontrar esse apoio no próprio gestor, fica difícil enxergar a atuação com bons olhos. O próprio livro apresenta exemplos que demonstram o quanto o gestor pode ser decisivo em situações em que o time está estressado, atrasado ou sobrecarregado. Seja para o bem ou para o mal. Então, caso você seja um gestor de pessoas, pense no quanto você influencia o time e na forma que você usa essa influência. Uma boa forma de entender isso é pedindo feedbacks ao time que, caso confie no seu trabalho, vai passar o que você precisa evoluir para melhorar a sua atuação.

Em segundo lugar, o gerente de primeiro nível tem um conhecimento profundo do time que gerencia. Ele entende quais pessoas são as melhores para determinado trabalho, sabe o que cada um tem como expectativa dentro da empresa e quais são as opiniões do time a respeito de como as coisas são conduzidas. Um gestor que faz 1:1’s recorrentes com os integrantes do time vai coletando essas informações com o tempo, conforme constrói confiança e se torna o principal conhecedor das pessoas que formam o time. Com isso, ninguém melhor do que o gestor de primeiro nível para falar sobre o que o time acha melhor ou sobre como comunicados podem ser recebidos.

Também é o gestor de primeiro nível que vai traduzir para o time a estratégia da empresa. Com o conhecimento do trabalho executado pelo time e da estratégia traçada, ele vai conseguir conectar o objetivo de alto nível com as atividades feitas no dia a dia. Deixando muito mais claro o propósito da existência do time e como cada pessoa pode colaborar com o resultado. Além disso, depois de iniciar o trabalho após o entendimento da estratégia, o gestor acompanha o trabalho do time, garantindo que o que está sendo feito é o que deve ser feito, no prazo e com qualidade.

Finalmente, o gestor de primeiro nível preserva o senso de conexão humana, sendo o guardião da cultura e do propósito do time. Essa é uma definição que peguei diretamente do livro que concordo muito. A natureza do nosso trabalho envolve criar conexões com as pessoas, construir relações de confiança e garantir que todos estão tendo atitudes de acordo com a cultura. Mas um ponto muito importante é que precisamos acreditar nessa cultura e nesse propósito para convencer o time. Por isso, entendo que, dentro do possível, devemos trabalhar em lugares com culturas saudáveis e que não vão exigir um esforço extra para se convencer de que o que é pregado é o melhor.

Com todos esses pontos, é compreensível que o papel do gestor de primeiro nível exija diversas habilidades para se fazer um bom trabalho. O livro apresenta algumas habilidades que os autores consideram as mais importantes para esse nível de gestão:

Essa lista é um bom guia para desenhar um Plano de Desenvolvimento Pessoal (PDI). De uma forma ou de outra, a atuação diária vai exigir cada vez mais do gestor e ter um leque de habilidades bem desenvolvidas é uma ótima forma de conseguir lidar com todas as exigências de maneira mais tranquila.

Quais são os desafios do papel

Mesmo sendo diretamente responsáveis pela motivação e pelas entregas do time, infelizmente o gestor de primeiro nível nem sempre é visto como um papel importante dentro das organizações. As habilidades que eu listei se tornam ainda mais importantes quando pensamos nos desafios enfrentados diariamente. Esses gestores recebem as reclamações do time e precisam lidar com as pessoas sempre que existem períodos de baixa motivação. Ao mesmo tempo, também recebem a pressão da alta liderança e precisam filtrar o quanto pode e deve ser passado para time. Junto disso, também está incluído acompanhar o trabalho do dia a dia e apoiar no desenvolvimento profissional dos liderados.

É uma camada de gestão intermediária que lida com diferentes tipos de pressão vindos de todos os lados. Por isso, habilidades como inteligência emocional, resiliência e adaptabilidade são requisitos importantes para uma boa atuação. Mesmo assim, em tempos de crise, esse papel costuma ser um dos primeiros a ser cortado. O livro apresenta dados que mostram que muitas empresas passaram por ondas de demissões que incluíram a extinção da média liderança como forma de economizar e resolver alguns problemas. A questão é que depois dessa decisão, a maioria percebeu o quanto o gestor de primeiro nível conseguia lidar com problemas que não chegavam às camadas superiores. Assim, o que acontece depois desses cortes é a recontratação da média liderança para conseguir ajustar os times novamente.

Como comentei na seção anterior, é um papel importante e com uma influência enorme na satisfação do time. Mas, infelizmente, isso nem sempre é percebido por quem não está tão próximo do dia a dia.

Com toda essa pressão e falta de reconhecimento, fica um pouco difícil enxergar a importância desse nível de gestão e entender que é um nível importante. Nos exemplos apresentados no livro e também no meu caso há pouco tempo atrás, o entendimento desses gestores é que a média liderança é apenas mais um passo na evolução profissional. Esse é o primeiro nível para quem entra na gestão de pessoas e a nossa visão de crescimento nos leva a acreditar que não podemos crescer dentro do papel, apenas subindo para gerente, diretor e o que mais estiver disponível na escada de gestão.


Uma coisa que não posso deixar de citar é que sempre senti muito reconhecimento por parte do time. Quando tentamos fazer um bom trabalho, deixando que o time faça o seu trabalho também, recebemos muitos feedbacks positivos e alimentamos a nossa vontade de continuar atuando nesse papel que pode ser o que define a opinião de cada pessoa a respeito da empresa em que trabalha.

Ler esse livro me fez mudar a forma de pensar e gerou muitas conversas de 1:1 com outros gestores e com pessoas de outras áreas sobre o quanto podemos atuar de forma diferente. Algumas pessoas têm a impressão de que a gestão de primeiro nível é feita por quem não tem capacidade de fazer o trabalho de verdade e eu entendo essa má fama. Desde quando virei Scrum Master já ouvi muitos comentários desacreditando a agilidade e a gestão de pessoas e existe uma resistência sempre que troco de time, já que o pensamento geral é que a gestão não faz muita diferença.

E mesmo com tantas responsabilidades e desafios, eu não me vejo fazendo nada diferente no momento. Trabalhar com gestão de pessoas é muito recompensador. E acredito que qualquer trabalho pode ser considerado difícil, então é melhor ser desafiado em algo que se gosta de verdade.

Recomendo a leitura e, como sempre, deixo a caixa de comentários abertas para quem concorda e também para que discorda das reflexões que eu trouxe aqui.

Até a próxima!

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