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Desigualdade racial no mercado de trabalho

Foto de Tirza van Dijk, via Unsplash

Esse é um assunto muito importante, independente do momento que estamos vivendo. Mas trago ele hoje como um ponto de discussão, após a repercussão da entrevista da Cristiane Junqueira no Roda Viva. Ela é co-fundadora do Nubank e ao ser questionada sobre as ações para incluir negros na liderança e sobre o alto grau de exigência para as vagas, ela respondeu o seguinte:

“Não dá pra gente também nivelar por baixo. […] Não adianta a gente colocar alguém pra dentro que depois não vai ter condição de trabalhar com as equipes que a gente tem, de se desenvolver, de avançar na sua carreira, depois não vai ser bem avaliado. […] Aí realmente não tá resolvendo o problema, a gente tá criando outro.”

Deixo o vídeo [1] com o trecho da entrevista como fonte, principalmente porque destaquei na citação apenas os pontos mais polêmicos.

Ao ouvir esse trecho, percebi que ela fala com muita segurança a respeito desse cenário que ela acredita ser a realidade. Uma visão de que negros não possuem qualificação suficiente para disputar vagas com maior senioridade e até mesmo que são incapazes de evoluir na carreira quando ganham uma oportunidade. Pesquisando sobre o assunto, encontrei dados que refutam essa visão distorcida, que até mesmo antes da pesquisa já sabia que estava errada. Mas a pesquisa é necessária, já que gostaria de explicar esse erro com fatos.

Uma pesquisa do IBGE [2] mostra que a partir de 2018 pretos e pardos passaram a ser mais da metade dos estudantes de ensino superior da rede pública, com 50,3% de representação. Apesar da pesquisa mostrar diversas desigualdades e que ainda não estamos em um nível de igualdade, este dado é importante para entender que a diversidade já é uma realidade dentro das universidades.

Neste ano, o site Vagas.com [3] fez um levantamento com uma base de 200 mil pessoas, com mais da metade autodeclarada como parda ou preta. Os dados mostram que 47,8% dos profissionais negros possuem formação superior, mas 47,6% destes profissionais estão trabalhando em nível operacional e apenas 0,7% estão em cargos de diretoria. Aqui temos dados que mostram que pessoas negras possuem diploma de graduação, mas não têm a oportunidade de desempenhar o cargo compatível com a formação.

Um artigo do Insper [4] expõe a desigualdade em relação aos salários pagos para profissionais formados em universidades públicas e privadas. Em nenhum dos cenários, homens e mulheres pretos e pardos ganham mais do que homens brancos. Isso significa que quando as empresas contratam os negros que conquistaram seus diplomas, eles ganham menos do que os seus pares.

Segundo o IBGE [5], a diferença da taxa de desemprego entre brancos e pretos atingiu o maior nível desde 2012. Isso foi um reflexo das demissões nas atividades econômicas com a maior participação de negros, como comércio e construção civil.

Então a situação é a seguinte: mesmo formados, quando estão empregados, os negros recebem uma remuneração menor e ainda são os primeiros a sentirem os impactos da crise gerada pela pandemia. Pensando nesse panorama e na fala da co-fundadora do Nubank, você realmente acha que a pessoa negra contratada não tem capacidade de desempenhar as suas atividades e crescer profissionalmente? Ou acha que estamos inseridos em uma realidade onde mesmo estando capacitados e dispostos somos barrados antes mesmo de iniciar a disputa?

"É um privilégio aprender sobre racismo, em vez de experimentá-lo!!!"

"É um privilégio aprender sobre racismo, em vez de experimentá-lo!!!" Foto de James Eades, via Unsplash

Mesmo falando somente de dados do Brasil, encontrei um artigo [6] a respeito da discriminação durante entrevistas de emprego com mulheres que usam o cabelo natural . É uma pesquisa que foi feita nos Estados Unidos e que eu achei bem interessante, ainda mais por estar em transição capilar e também ser uma adepta das tranças. Mudanças que sempre me fizeram pensar antes de fazer, para “não ter problemas no trabalho”. O que, pensando bem, é um absurdo, mas não consigo evitar esse pensamento a cada mudança. Caso você ache isso um exagero, a leitura da pesquisa pode te ajudar a compreender melhor os diversos níveis de racismo que muitas vezes estão nos detalhes e algumas pessoas não percebem.

Incluí todas as fontes ao final do post e, como sempre, deixo o espaço dos comentários aberto para debates e contribuições.


Fontes:
  1. Cristina Junqueira sobre ações para a entrada de pessoas negras no mercado - Roda Viva ↩︎

  2. Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil - IBGE ↩︎

  3. Pesquisas mostram abismo no mercado de trabalho para profissionais negros - Exame ↩︎

  4. Diferenciais Salariais por Raça e Gênero para Formados em Escolas Públicas ou Privadas - Insper ↩︎

  5. Por que o desemprego aumentou mais para negros do que brancos na pandemia - UOL ↩︎

  6. Research Suggests Bias Against Natural Hair Limits Job Opportunities for Black Women - Duke University ↩︎

ingridmachado

Ingrid Machado

Engenheira de computação, especialista em engenharia de software.
Autora deste querido blog.

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